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Textos

Boitatá, o protetor dos campos

Rosane Volpatto

Acreditavam os tupis-guarani num espírito que protegia os campos contra aqueles que o incendiavam. E, conservavam esta crença, dando-lhe a forma de uma serpente ígnea que residia na água. Algumas vezes torna-se um tronco em brasa, denominado "méuan", que fazia morrer todo aquele que tentasse inutilmente incendiar o campo.

Boitatá, em guarani significa: "mboi" (cobra) e tatá (fogo). Sofreu entre nós diversas alterações tanto no sentido como na forma....

Do Boitatá, no Sul, se conhece três versões: a primeira mostra-o com os olhos ferventes. Nas trevas distingue tudo, porém na luz nada vê. Quando as águas tomaram conta da campanha (Dilúvio), alagando caminhos, várzeas e coxilhas, ela foi para o lugar mais alto que encontrou. Tanto furou, que conseguiu fazer um buraco muito fundo e escuro. Recolhe-se neste local e esperou até que as águas baixassem. A necessidade de distinguir nas trevas, obrigou-a a arregalar os olhos. Mas ela arregalou tanto...tanto, que elas passaram a brilhar como duas tochas de fogo. São os olhos de Boitatá, assim transformados, que o gaúcho se depara à noite, quando passeia pelos campos....

A segunda versão, corrente entre os estanceiros gaúchos, é que durante à noite ao cavalgar ou viajar à noite, avistam um fogo volante, às vezes em forma de cobra, outras vezes em forma de pássaro, voando na frente do cavaleiro e impedindo-lhe a marcha. Há uma crendice popular que Boitatá se deixa atrair pelo ferro. E, então um meio de se livrar de seu ataque, consiste em desatar o laço e arrastá-lo pela presilha. Ele acompanhará o ferro da argola do laço e ao se passar por um arbusto, ele se desmancha todo. Até que se recomponha, a pessoa tem tempo de fugir.

A terceira versão nos foi transmitida por J. Simões Lopes Neto. Ele nos relata que numa noite muito escura iniciou-se o grande dilúvio. A água cobriu todas as coxilhas, inundou as sangas e arroios, encheu todas as tocas dos animais, inclusive a de uma cobra grande chamada de "boiguaçu" que dormia quieta. Acordando com o frio da água, encheu-se de susto. Saiu para fora e apertada de fome começou a comer só os olhos dos animais que encontrava a sua volta. Como os animais sofrem influência do alimento que comem, a Boiguaçu não escapou a regra, sua pele tornou-se muito fina e ficou luminosa pelos mil olhos que devorou.

Os homens quando voltaram à vê-la, não a reconheceram e pensaram tratar-se ser de uma nova cobra, por causa de seu aspecto deram-lhe o nome de Boitatá, ou seja, cobra de fogo.

Passado um certo tempo, a Boitatá morreu de pura fraqueza, porque só os olhos que comeu não a alimentaram o suficiente. Ao decompor-se, a luz que estava presa dentro dela esparramou-se pelos brejos e pode tomar a forma tanto de cobra como de boi. O povo da campanha adverte, ao vê-la deve-se ficar imóvel, de olhos fechados, sem respirar, até que ela resolva ir embora.

13/09/2006 16:58

Na região missioneira, adquiriu Boitatá uma função disciplinadora de castigo entre pessoas que se estimam e consideram. Para conservar o respeito que deve haver entre compadre e comadre e levando em conta a fragilidade humana, existia a lenda de Mboitatá (Víbora de Fogo) que se reduz ao seguinte: se os compadres esquecerem-se do sacramento que os une, não fazerem caso dele, faltando a comadre a seus deveres conjugais com seu compadre, de noite se transformarão os culpados em Mboitatá, ou seja, em grandes serpentes ou pássaros que possuem em vez da cabeça uma chama de fogo. Eles brigarão toda a noite, lançando chamas e queimando-se mutuamente até o final da madrugada, para tornar a fazer tal feito na noite seguinte, assim por séculos e séculos, mesmo depois de mortos.

Texto pesquisado e desenvolvido por

Rosane Volpatto



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